Toda a cidade já estava acostumada com os projetos absurdos de Vitalino. Mas ninguém poderia imaginar que ele viesse decretar o único carrinho de pedreiro como “veículo oficial número Um”. A “viatura”, como costumava definir, era empurrada por Leci, e passava o dia estacionada nas portas do bar do condutor. À noite, com Vitalino devidamente deitado, ela seguia para a rua da Olaria, onde o prefeito era despejado. No trajeto, fazia escala numa estação montada sob a janela do padre Antônio, onde Vitalino cantava seus desaforos, como esses: “Ô seu vigário, seu grande filho da puta. Está chupando a Aurora, como se ela fosse fruta”. O vigário não interrompia o trabalho, não dava ouvidos a Vitalino em troca de Aurora, uma beata que cuidava da batina e do que ela escondia.
Foi assim até o dia em que Vitalino apelou. Avisou os amigos que iria se confessar. E logo com o padre Antônio. Era já o segundo da fila, quando o vigário avisou que iria embora. “Mas eu só quero a extrema unção”, imporou Vitalino. Isso o padre daria até de graça, e resolveu atender ao prefeito. “Confesse seus pecados”, ordenou. “Não estou aqui para fazer confissão, mas para ouvir uma: qual de minhas três sobrinhas o padre está comendo?”. A resposta foi um engasgo, e o prefeito interpretou: “Já sei, são as três. Obrigado”.
A cada dia o padre Antônio aumentava sua ira por Vitalino. E não era para menos. Na madrugada mais fria que o Viamão já viveu, o vigário acordou com os sinos badalando em ritmo desafinado. Vestiu a batina, cobriu a meiga Aurora e atravessou a Praça do Carmo. Debaixo da torre da igreja lá estava a jumentinha do Aniceto, amarrada com as cordas que ligavam aos badalos dos sinos. “Isso só pode ser coisa do Vitalino”, disse o padre. O prefeito ouviu tudo e saiu de uma moita onde havia se escondido. Com ele estava um fotógrafo, e enquanto o padre Antônio tentava soltar a jumentinha, ali com a batina desarrumada, Vitalino ordenava ao retratista:
“Tire o retrato do padre. A cidade deve saber que também ele está comendo a jumentinha do Aniceto”. Na manhã seguinte o Viamão já sabia da vigarice do padre Antônio. Cartazes anunciavam pelos bares e até na zona: “Esse padre ninguém mais agüenta. Depois de comer todas as mulheres, não perdoa nem mesmo a jumenta”.
A concorrência entre o padre e o prefeito tornava-se a cada dia mais acirrada e Vitalino decidiu abrir uma “igreja”. Convenceu um caixeiro viajante a ser seu auxiliar, o “irmão Daluz”. Alugou um pequeno galpão, fez nas oficinas da prefeitura alguns bancos e pôs-se a celebrar. Antes, recomendou a um eletricista que as luzes do templo deveriam ser apagadas por uma tomada da porta ou por outra colocada num quarto localizado nos fundos. Era de lá que Vitalino tirava os pecados das “ovelhas”. Ao se interessar por uma, gritava que o Cristo estava na porta e não entrava na presença de uma pecadora. Essa era escolhida e recebia ordens para ir ao quarto dos fundos. O auxiliar Daluz apontava a tomada da porta da frente e pedia que o Cristo a apagasse. Mas era lá de dentro, já na cama com a pecadora, que Vitalino interrompia a ligação.
A estratégia deu certo por algum tempo. E Vitalino quase conseguiu seu objetivo, que era o de ter mais filhos no Viamão do que o padre Antônio. Tudo ia bem, pelos cálculos do prefeito. Ele já possuía um catálogo onde as pecadoras, mediante uma tabela, a cada dia poderiam ser identificadas: se estavam menstruadas, no cio ou grávidas. Mas na escuridão que precedia a “lavagem” das pecadoras, numa sexta-feira, embriagado como sempre, o prefeito-pastor se perdeu entre os bancos e acabou arrastando para o quarto o Joaquim Pé-de-Mesa, um mulato forte e bom de briga. Foi a maior briga que Viamão já assistiu. E que comprovou que muitos já sabiam: o templo de Vitalino não era mesmo santo.
Terminada a contenta, Vitalino foi ameaçado de expulsão do Viamão. Mas ficou pé lá com um argumento atirado contra o principal adversário, padre Antônio. Com um cartaz grotesco, postou-se nas escadarias do Carmo, anunciando que faria a contagem de quantas “foram as mulheres comidas pelo vigário”. Prometia mais no cartaz: “Darei o nome da adúltera em praça pública”. A igreja, por duas semanas, ficou vazia, e nem mesmo o sacristão Leonel apareceu por lá. Diante do isolamento imposto pelas ameaças, o padre implorou e a Câmara dos Vereadores decidiu arquivar o pedido de expulsão do Vitalino. De vilão, o prefeito impostor passou a benfeitor e voltou a circular livremente pelo Viamão, estudando novas trapalhadas.
Foi assim até o dia em que Vitalino apelou. Avisou os amigos que iria se confessar. E logo com o padre Antônio. Era já o segundo da fila, quando o vigário avisou que iria embora. “Mas eu só quero a extrema unção”, imporou Vitalino. Isso o padre daria até de graça, e resolveu atender ao prefeito. “Confesse seus pecados”, ordenou. “Não estou aqui para fazer confissão, mas para ouvir uma: qual de minhas três sobrinhas o padre está comendo?”. A resposta foi um engasgo, e o prefeito interpretou: “Já sei, são as três. Obrigado”.
A cada dia o padre Antônio aumentava sua ira por Vitalino. E não era para menos. Na madrugada mais fria que o Viamão já viveu, o vigário acordou com os sinos badalando em ritmo desafinado. Vestiu a batina, cobriu a meiga Aurora e atravessou a Praça do Carmo. Debaixo da torre da igreja lá estava a jumentinha do Aniceto, amarrada com as cordas que ligavam aos badalos dos sinos. “Isso só pode ser coisa do Vitalino”, disse o padre. O prefeito ouviu tudo e saiu de uma moita onde havia se escondido. Com ele estava um fotógrafo, e enquanto o padre Antônio tentava soltar a jumentinha, ali com a batina desarrumada, Vitalino ordenava ao retratista:
“Tire o retrato do padre. A cidade deve saber que também ele está comendo a jumentinha do Aniceto”. Na manhã seguinte o Viamão já sabia da vigarice do padre Antônio. Cartazes anunciavam pelos bares e até na zona: “Esse padre ninguém mais agüenta. Depois de comer todas as mulheres, não perdoa nem mesmo a jumenta”.
A concorrência entre o padre e o prefeito tornava-se a cada dia mais acirrada e Vitalino decidiu abrir uma “igreja”. Convenceu um caixeiro viajante a ser seu auxiliar, o “irmão Daluz”. Alugou um pequeno galpão, fez nas oficinas da prefeitura alguns bancos e pôs-se a celebrar. Antes, recomendou a um eletricista que as luzes do templo deveriam ser apagadas por uma tomada da porta ou por outra colocada num quarto localizado nos fundos. Era de lá que Vitalino tirava os pecados das “ovelhas”. Ao se interessar por uma, gritava que o Cristo estava na porta e não entrava na presença de uma pecadora. Essa era escolhida e recebia ordens para ir ao quarto dos fundos. O auxiliar Daluz apontava a tomada da porta da frente e pedia que o Cristo a apagasse. Mas era lá de dentro, já na cama com a pecadora, que Vitalino interrompia a ligação.
A estratégia deu certo por algum tempo. E Vitalino quase conseguiu seu objetivo, que era o de ter mais filhos no Viamão do que o padre Antônio. Tudo ia bem, pelos cálculos do prefeito. Ele já possuía um catálogo onde as pecadoras, mediante uma tabela, a cada dia poderiam ser identificadas: se estavam menstruadas, no cio ou grávidas. Mas na escuridão que precedia a “lavagem” das pecadoras, numa sexta-feira, embriagado como sempre, o prefeito-pastor se perdeu entre os bancos e acabou arrastando para o quarto o Joaquim Pé-de-Mesa, um mulato forte e bom de briga. Foi a maior briga que Viamão já assistiu. E que comprovou que muitos já sabiam: o templo de Vitalino não era mesmo santo.
Terminada a contenta, Vitalino foi ameaçado de expulsão do Viamão. Mas ficou pé lá com um argumento atirado contra o principal adversário, padre Antônio. Com um cartaz grotesco, postou-se nas escadarias do Carmo, anunciando que faria a contagem de quantas “foram as mulheres comidas pelo vigário”. Prometia mais no cartaz: “Darei o nome da adúltera em praça pública”. A igreja, por duas semanas, ficou vazia, e nem mesmo o sacristão Leonel apareceu por lá. Diante do isolamento imposto pelas ameaças, o padre implorou e a Câmara dos Vereadores decidiu arquivar o pedido de expulsão do Vitalino. De vilão, o prefeito impostor passou a benfeitor e voltou a circular livremente pelo Viamão, estudando novas trapalhadas.
Um comentário:
Este é o penúltimo post do conto "Vitalino e sua República Atrevida".
Abs
Fred
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