terça-feira, 3 de março de 2009

Vitalino e sua República Atrevida (III)

Com a fama de cafetão que rapidamente adquiriu, Vitalino descobriu que poderia ser político. Com tantos clientes agenciados e levados ao Morro da Égua, seria praticamente impossível perder uma eleição para prefeito de Viamão. Candidatou-se para a surpresa de todos e a indignação do padre Antônio. “Um cafetão não pode ser prefeito”, dizia o sacerdote. “Então um garanhão nunca poderia ser padre, e nessa cidade tem mais filho do padre do que filho da puta”, rebatia Vitalino.

Veio a eleição, o padre Antônio transformou o púlpito em palanque que, trocou a ladainha pelos comícios e derrotou Vitalino. Ele, porém acordou pensando que estava vitorioso, foi à praça soltou foguetes e decretou a “República atrevida de Viamão”. Nomeou Maria Tu, a prostituta mais velha da cidade como primeira-dama; o açougueiro Lulu para a Secretaria de Abastecimento, e o carroceiro Jorjão para a Secretaria dos Transportes. O garrafeiro e raizeiro Zé Bode foi alçado ao cargo de Secretário da Saúde, e o padre Antônio teve sua prisão preventiva anunciada também por decreto, “em nome dos bons costumes”. Estava composto o governo atrevido de Vitalino, que ocuparia mais tarde o bar do Leci como sede permanente. “O paço municipal”, como foi escrito numa placa improvisada em um pedaço de lata de querosene Jacaré.

Vitalino trocou a pinga por um vermute barato. Passou a usar um surrado terno de linho e adotou o nome completo: “José Vitalino Luiz dos Santos”. Para se mostrar um “imperador democrático”, implantou as audiências comunitárias. Mas tinha pouco gosto por elas, já que não suportava pedidos nem reuniões que envolviam mais de quatro copos em torno de uma mesa. “Aqui estou, putada. Se alguém veio para pedir pode se retirar. Se veio para me presentear com alguma coisa, que fique. Nada recebo dos cofres públicos, apenas o que retiro para o meu sustento”, anunciava a cada abertura de uma audiência comunitária”.

Numa delas foi aplaudido de pé – coisa que nunca tinha vivido na carreira de político, ao anunciar dois projetos que iria enviar à Câmara dos Vereadores: o primeiro legalizava o jogo-do-bicho e obrigava os bicheiros a doar cinco por cento ao prefeito. O segundo, cadastrava as prostitutas e obrigava cada uma delas a doar, também ao prefeito, 20 por cento da “verba” arrecadada. Para justificar tamanha extorção, Vitalino prometeu comprar com dinheiro próprio, “camisinhas vulcanizadas” que seriam distribuídas gratuitamente na zona do Viamão. E, entusiasmado com os aplausos recebidos, ditou logo um telegrama ao governador do Estado:

“Excelentíssimo, comunico-lhe que aqui no Viamão o bicho já corre solto, e as bichas não oferecem mais perigo. O povo joga livremente e não mais trepa perigosamente. Segue um jogo de presente que decretarei premiado, e uma caixa de camisas vulcanizadas. Atenciosamente, José Vitalino Luiz dos Santos”.

Logicamente o governador não respondeu. Mas Vitalino forjou uma resposta que, xerocada, foi afixada em todos os botequins de Viamão: “Caro Vitalino, agradeço pelo esforço na tentativa de arrecadação aumentada. E também pela guerra declarada à bicharada. As camisinhas serão por mim usadas contra a oposição. Viva o Viamão atrevido e o exemplo que o nobre correligionário está dando ao mundo”.

Padre Antônio questionou a veracidade de tal documento e para combatê-lo Vitalino saiu com outro, este assinado por ele mesmo: “O padre nunca foi santo, nem sabe o que é água benta. Mas se encontra uma virgem pela frente, logo ele a arrebenta”.

Um comentário:

Fred disse...

Deixe seu nome ao comentar.
Obrigado
Fred