segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Vitalino e sua República Atrevida (I)

Magno Madureira

Naquela quarta-feira esbranquiçada pela chuva fina, Vitalino acordou, como sempre, amarelo e trêmulo. Esperou que o primeiro bar abrisse e foi lá, bem na praça do Carmo, que recebeu a notícia: “Juquinha morreu”, anunciou o sacristão Leonel. Logo os sinos soaram em ritmo fúnebre, e Vitalino começou a beber no compasso das badaladas. Afinal, já diziam que Juquita havia morrido de desgosto, por ter brigado com Vitalino uma semana antes. Roubaram uma galinha do Juquita e o Vitalino, que sequer comia franga, acabou pagando o pato.

Cinco horas mais tarde o corpo do Juquita já estava pronto para ser levado ao cemitério. E devidamente encomendado pelo sacristão Leonel que, nessas horas, se passava até por cardeal. Com parâmetros, a bíblia e um discurso que sempre se repetia a cada velório. Vitalino hesitava: temia visitar o morto e ser criticado. Mas decidiu e foi lá. Entrou pela casa de Juquita como se fosse membro da família. Bebeu à vontade, almoçou, falou das virtudes e dos pecados do morto e se encarregou de fechar o caixão. Tudo pronto, ele ordenou a saída rumo ao cemitério.

Com ar de quem dava mesmo as ordens, como se o defunto fosse seu, Vitalino pegou logo a primeira alça do caixão. “Aqui eu seguro, pois sou o prefeito e estou representando a municipalidade”, disse-lhe o chefe do Executivo Municipal, o Nuquitão. Quando segurou a segunda alça foi a vez do sacristão Leonel reclamar: “O corpo foi encomendado por mim e eu quero ter a honra de levar parte dele”. Na próxima alça, um filho do Juquita se aproximou e Vitalino rapidamente passou para a quarta, que ninguém segurava ainda. Foi aí que o delegado Zizito se aproximou e bem autoritário ordenou: “Como chefe da força pública quero ter o prazer de dividir esse peso”.

Vitalino olhou para os lados, passou por todos os lados do caixão e não encontrou outra alça. Indignado, esbravejou diante do espanto das beatas que puxavam uma “salve-rainha”: “Querem saber de uma coisa? Pois enfiem esse defunto no cú”.

Passada a ressaca, e novamente amarelo, Vitalino fez uma confissão pública, no bar do Leci. Iria mudar de vida; só beberia em festas de amigos, onde a pinga necessariamente seria de graça. Logo a promessa se espalhou. O prefeito cuidou de ajudar, doando um terreno da prefeitura para que Viltalino começasse vida nova. Fazendeiros doaram sementes e até uma cabrita que o premiado trocou no dia seguinte por uma garrafa de cachaça. O padre Antônio celebrou três missas: duas em ação de graças pela mudança de vida anunciada por Vitalino; uma terceira, excomungando o pobre coitado.

Ninguém mais acreditava na promessa feita no bar do Leci. Até que o padre, o delegado, o prefeito e os familiares de Vitalino decidiram enterra-lo vivo. O que ele prontamente aceitou. “Afinal não tenho jeito mesmo para o trabalho”, chegou a comentar. Feito seu único pedido, o de ser enterrado ao lado do amigo Juquita, lá seguia o enterro, quando um piedoso paroquiano se aproximou, fez cócegas no corpo do defunto-vivo e implorou: “Não deixe que eles enterrem você vivo.Você já tem um terreno de cultura e vou lhe dar meio saco de arroz para você começar a vida”.

“O arroz é com casca ou sem casca?”, perguntou Vitalino abrindo só um dos olhos, tamanho era o conforto em que se achava. “É com casca, para você plantar e se tornar um agricultor, ganhar dinheiro...”, respondeu o paroquiano. Já com os dois olhos abertos e mostrando indignação, Vitalino retrucou: “Então, toca o enterro”. Só não chegou a ser sepultado porque se recusou a cumprir uma determinação do delegado Zizito, como estava vivo, ele próprio deveria cavar a sepultura. “Se até para morrer é preciso fazer força, melhor ficar vivo”, justificou mais tarde e já de volta ao bar do Leci.

5 comentários:

Fred disse...

Deixe seu nome ao comentar.
Obrigado
Fred

Anônimo disse...

Fred, que ótima iniciativa! Eu sabia que o Tio Zé escrevia, mas que bom que temos a oportunidade de conhecer seus trabalhos. Quem sabe não dá até pra publicar...
Abraços,
Solange.

Anônimo disse...

Bacana demais a iniciativa. Eu mesmo tenho um arquivo aqui em casa, com uma parte do conto do Vitalino, que seu pai mandou pra mim em 2000. Mas tô vendo que o texto foi atualizado depois, pois não está batendo com o que tenho aqui. Parabéns!

Abraço;

Fabrício.

Fred disse...

Que bom que vocês gostaram!

Fabrício - eu também tenho dúvidas sobre qual é a versão mais nova, mas depois que eu publicar todo o conto que tenho aqui, você pode comentar e ver se tem algo novo a acrescentar. Aí a gente vê qual é a melhor versão.

Paulinho - esse texto realmente é aquele de Piedade de Paraopeba, talvez com algumas alterações.
Abs

Fred

Fred disse...

Pessoal, esqueci do último parágrafo deste primeiro post. Agora sim, tudo certo.

Fred